Blog das Gerais

Por Orlando Macedo

As 11 mãos estão juntas agora. São 11 mãos de todas as cores e formatos. Onze mãos de lugares diferentes da cidade, de famílias diferentes, de classes sociais diferentes, de religiões diferentes. Mas elas estão juntas agora. Depois de uma pausa para se certificar que estão todas ali, o Capitão começa: “Pai nosso que estais no céu…”. A partir dali todas as mãos se tornam um único desejo. De ganhar, talvez, mas de que aquele grupo tenha inspiração divina para a batalha por vir. A partir dali todos são guiados pela fé.

Após os fogos e as apresentações dos peões, a voz retumbante do locutor esmaece. O chapéu desce da cabeça ao peito, os olhos abaixam. Seus joelhos tocam o chão. A Santa é invocada para na batalha visceral entre homens e feras, o seu manto proteja a todos: cowboys e também cavalos e touros, plateia. A partir dali não é só um rodeio, é uma manifestação de fé.

Os nomes dos combatentes são chamados. A beira do tatame, as últimas instruções dos mestres. O combate anterior acaba, e os lutadores são convidados a arena. Eles se abaixam, tocam a testa no tatame ou erguem as mãos para o céu. A reverência difere, mas não o pedido. Obrigado por mais um combate, obrigado por estar ali. E que eu seja protegido não da derrota, que eu seja agraciado não pela vitória. Que Ele apenas nos dê um bom combate. A partir dali, apena a fé vai conduzir.

Fé não tem fronteira, não tem raça, não tem religião. Fé é apenas aquela coisa que surge quando sabemos que só nós não seríamos capazes. Fé é aquilo que nos conduz através do intransponível, que vence força, altura e distância onde nosso corpo não seria capaz. Fé é aquele milímetro que a bola sai da mão do goleiro, é aquele centésimo a mais de equilíbrio, é aquele segundo de distração do adversário. Eles são grandes, mas seus adversários também. E a fé os faz ficar gigantes.

No esporte e na vida, não há desafio fácil. Para falar a bem da verdade, tudo nos parece maior, traiçoeiro. E se não há aquela centelha que nos faz prosseguir, desafiar, ganhar e perder (que no fundo são a mesma coisa), ficamos estagnados, mortos em vida. Fé é vida.

“Obrigado, Senhor”, dzi o Capitão. “obrigado, Senhor”, repetem outras 10 vozes. “Obrigado, Nossa Senhora”, diz o locutor. “Obrigado, Senhor”, pensa o lutador. A batalha ainda nem começou, mas o agradecimento não é pelo resultado, é pela própria batalha.  A partir dali eles sabem que existe algo mais que estará com eles. A partir dali eles tem fé.

Orlando Macedo é engenheiro mecânico e professor, com especialização em extensão em Pedagogia; Gerenciamento de Equipes, pela Universidade do Futebol; e Gestão de Times de Futebol (IFET-CE). Ao longo da carreira, atuou como docente em diferentes instituições, foi coordenador do Time Açaí de Futsal Infantil e proprietário da Escolinha Titãs.

A opinião dos nossos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Bom Dia Leopoldina. 

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