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Racismo não é opinião. É crime.

Por Rafaella Locha

Todo fim de ano traz consigo a ilusão de que o calendário, por si só, é capaz de promover mudanças. Mas o início de um novo ciclo não apaga violências antigas — especialmente aquelas que continuam sendo repetidas, toleradas e, muitas vezes, “justificadas”. Os episódios de violência racial que insistem em ocorrer mostram que o racismo não é um desvio eventual da sociedade brasileira/leopoldinense: ele é um traço persistente, que se adapta, se disfarça e reaparece sempre que encontra espaço para existir.

Em menos de um mês, Leopoldina presenciou dois casos de injúria racial. Dois episódios próximos demais para serem tratados como coincidência. O que eles revelam não é apenas a conduta individual de quem ofende, mas a certeza — ainda presente — de que ofender pessoas negras pode sair barato. De que humilhar, constranger ou atacar alguém pela cor da pele ainda encontra compreensão, silêncio ou relativização.

É preciso dizer com clareza: não existe conflito cotidiano quando a violência tem endereço certo. Não existe “excesso verbal” quando a ofensa se ancora na raça. Não existe descontrole emocional que transforme crime em opinião. Racismo e injúria racial são práticas que ferem direitos fundamentais e afrontam diretamente a Constituição. E ponto.

A insistência em justificar essas condutas com argumentos como idade, temperamento ou “jeito de falar” revela mais sobre quem relativiza do que sobre quem sofre a violência. Nenhuma trajetória pessoal autoriza a violação da dignidade alheia. Nenhuma posição social concede licença para humilhar. Quando a sociedade aceita esse tipo de narrativa, ela não pacifica conflitos — ela escolhe um lado.

Racismo não se manifesta apenas em grandes atos de violência. Ele se expressa na desvalorização cotidiana do trabalho, na tentativa de enquadrar corpos negros em lugares subalternos, na certeza de impunidade de quem se sente acima do outro. É estrutural justamente porque se repete, porque é aprendido, porque é reproduzido sem constrangimento suficiente para ser interrompido.

O Brasil convive há séculos com a falsa ideia de harmonia racial, enquanto empilha desigualdades e mantém a população negra nos piores indicadores sociais e no centro do sistema penal. Em Leopoldina não é diferente. Ainda assim, quando o racismo é nomeado, a reação costuma ser defensiva: nega-se, minimiza-se, desloca-se o foco. Essa postura não é inocente. Ela sustenta o problema.

A responsabilização penal, nesses casos, não deve ser vista como exagero ou revanche. Ela é necessária para reafirmar que há limites. Que certos comportamentos não são aceitáveis. Que a dignidade humana não é negociável. Inclusive porque não existe ressocialização possível — nem individual, nem coletiva — sem enfrentamento real da violência praticada.

Falar de racismo exige coragem social. Exige abandonar o conforto da neutralidade e assumir que o silêncio também produz efeitos. Não se trata de dividir a cidade, mas de perguntar que tipo de comunidade queremos ser: a que relativiza a violência ou a que se compromete com o respeito.

Que os episódios recentes sirvam como alerta e responsabilidade. Que Leopoldina não se acostume, não normalize e não silencie. O combate ao racismo começa quando a sociedade decide que não vai mais tolerar o intolerável.

Respeito não é concessão.
É direito.

Rafaella Locha é advogada, especialista em Direito Constitucional e Privado e gestora no Instituto Tudo Muda.

A opinião de nossos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Bom Dia Leopoldina.

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